Estamos em junho de 2020 e Drew Brees ainda acha que ajoelhar no hino é desrespeito à bandeira
Mesmo depois de Colin Kaepernick se explicar, mesmo depois de ficar evidente que a causa da violência policial é mais do que justa para que os atletas se manifestem PACIFICAMENTE, lá vem o QB dos Saints reproduzir pensamento conservador desonesto
03/06/2020 16h13
Quando Colin Kaepernick começou a se ajoelhar durante o hino nacional americano antes das partidas da temporada de 2016, o jogador conseguiu muitas coisas, mas talvez a maior delas tenha sido escancarar a desonestidade com a qual os conservadores tratam o debate racial nos EUA.

Kaepernick começou seus protestos pacíficos não se levantando para o hino. Quando isso gerou desgaste por um suposto desrespeito à bandeira e ao exército americano que garante as "liberdades" dos cidadãos, Kaepernick foi questionado e deixou claro que seu problema não era esse. Conversou com o jogador e ex-militar Nate Boyer que sugeriu que Kaep se ajoelhasse. Também não adiantou. Àquela altura, depois do então camisa #7 dos 49ers se explicar para a mídia, acomodar uma nova ação em seu protesto, a pauta já havia sido sequestrada.

Perceba que uma manifestação pacífica levou Colin Kaepernick a ser boicotado por todos os times da liga e rechaçado pelos conservadores liderados pelo lunático presidente do país. Por outro lado, manifestações violentas fruto de uma revolta mais do que justa contra um sistema violento e genocida também são inaceitáveis pois violentas. Não há para onde correr e a população negra dos EUA já percebeu isso.

Nada disso impede o quarterback Drew Brees, do New Orleans Saints, um dos nomes mais importantes da liga inteira e um dos melhores quarterbacks da história do esporte, de chegar no mês de junho do ano de 2020 depois de Cristo e rechaçar manifestações pacíficas como a de Kaep. Na verdade, Brees está apenas mantendo seu posicionamento original.

Em entrevista para o Yahoo Finance: "Eu nunca vou concordar com alguém desrespeitando a bandeira dos Estados Unidos da América ou o nosso país." Brees aproveitou para descrever as imagens de patriotismo, defesa da "liberdade", que lhe passam pela cabeça no momento do hino nacional. Acredita que ficar lá de pé ouvindo o hino com a mão no coração demonstra unidade, que todos estão juntos. QUE PAPO É ESSE, MEU CAMARADA?

Palavras vazias não adiantam de nada em um país com um problema de racismo estrutural, principalmente dentro do seu corpo policial. Não há unidade, principalmente em uma tema que deveria ser bastante óbvio: a brutalidade policial contra negros. Brees tem a oportunidade de aprender mais sobre o assunto com algum dos seus diversos colegas de equipe, inclusive Malcolm Jenkins, um líder dentre e fora do campo que encabeça o Players Coalition, organização formada por jogadores e ex-jogadores com o objetivo de causar impacto de justiça social e igualdade racial.

Mas Brees prefere manter seu pensamento exatamente igual, assim como a sociedade racista que finge não ver. Enquanto isso, fortalece um argumento desonesto e mentiroso sobre manifestações pacíficas contra uma realidade brutal.


Ilustração de Guga Sanches




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