Washington Post denuncia cultura de assédio contra mulheres dentro do time de Washington da NFL
Denúncia de 15 mulheres trazida pelo jornal denota ampla cultura de assédio sexual e moral contra as mulheres dentro da organização, dificilmente sem o conhecimento das principais lideranças - o que inclui o dono, Dan Snyder
17/07/2020 10h41 - por Marcelisco
Já havia uma expectativa, desde terça-feira (13/07), sobre algo importante a ser reportado a respeito da franquia de Washington que prometia abalar, ainda mais, as estruturas da franquia. Algo que vinha sendo investigado pelo Washington Post e que poderia ter relação com as saídas recentes de profissionais do alto escalão do time. Agora ela chegou e o negócio é SÉRIO.

A matéria, divulgada na noite de ontem, traz a denúncia de 15 mulheres revelando uma cultura tóxica de assédio moral e sexual em toda a companhia, incluindo acusações diretas a homens de confiança do dono Dan Snyder que, apesar de não ser acusado por nome, era também responsável pela manutenção de uma cultura tóxica e de assédio com seus subordinados. Isso para não falar na negligência a respeito dos acontecimentos relatados na matéria.

Das 15 mulheres ex-funcionárias do time, apenas Emily Applegate aceitou divulgar seu nome, enquanto as demais temeram por eventuais consequências, já que têm acordos de confidencialidade assinados com o clube - o Washington Post solicitou ao time desconsiderá-los, o que não foi aceito.

Precisa nem falar que até o fato dessas mulheres temerem pela divulgação dos seus nomes, atrelados a acusações justas e comprovadas, já é um grande indicativo por si só, fruto da estrutura machista em que nos inserimos. Essa mesma estrutura era, e ainda é, tão bem representada nos corredores do time de futebol americano de Washington que muitas delas não se sentiam confortáveis para buscar ajuda e fazer estas denúncias.

E isso tem que te fazer pensar: no seu local de trabalho, você conhece algum caso de assédio sexual ou moral? Existe a possibilidade de denúncia? Você sente segurança no que vai acontecer após a denúncia ser apresentada? Se você for homem, acredita que as mulheres que trabalham com você responderiam estas perguntas da mesma maneira?

Os nomes implicados nas gravíssimas acusações incluem (me sinto na obrigação de salientar que a organização tá igual a da matéria do Washington Post que, de novo, encorajo você a ler):
  • Larry Michael, vice presidente sênior de conteúdo e narrador das transmissões de rádio do time nos últimos 16 anos, acusado de frequentemente discutir a aparência física de suas colegas de trabalho em tons sexuais e depreciativos. Procurado pela reportagem, Michael não se manifestou e se aposentou na última quarta-feira. Sabe como é, o costumeiro pra um inocente;
  • Alex Santos, diretor de staff profissional desde 2014 e com o time desde 2006, acusado por seis ex-colegas mulheres de fazer comentários inapropriados sobre seus corpos e questionar sobre interesse romântico delas nele. Demitido na última semana no que alguns consideraram uma sacudida na diretoria, Santos foi investigado pelo time, em 2019, após denúncia da repórter do The Ringer, Rhiannon Walker, de que ele não só a havia beliscado, como também comentado sobre sua bunda e a chamado pra sair. Santos era casado e Walker comprometida. Esta investigação não levou à demissão de Santos, o que diz muito sobre a cultura da empresa e sobre a insegurança que as mulheres tinham para fazer denúncias. Nora Princiotti, do The Ringer, também o acusou de assediá-la;
  • Richard Mann II, diretor assistente de Alex Santos, foi acusado de assédio e o Washington Post ainda teve acesso a mensagens de texto enviadas para uma colega onde conta a ela que debateu com seus companheiros homens acerca de um possível implante de silicone, além de prometer um abraço inapropriado e para ela não se preocupar pois "será um grampeador no meu bolso", alusão a tocar seu pênis no corpo da colega. Mann foi demitido na mesma oportunidade de Santos;
  • Dennis Greene, ex-presidente de operações de negócio até 2018 (ficou 17 anos no clube), foi acusado por cinco ex-colegas de mandar suas funcionárias usarem decote, saias apertadas e flertar com potenciais compradores das suítes de luxo do estádio. Greene já havia sido implicado num escândalo envolvendo a venda de acesso às cheerleaders do clube a estes mesmos potenciais compradores, motivo pelo qual acabou pedindo para sair do clube quase um mês depois;
  • Mitch Gershman, ex-COO, acusado por Emily Applegate de tratá-la agressivamente por problemas triviais, ao mesmo tempo em que fazia comentários sobre seu corpo. O abuso sofrido por Emily foi confirmado por, pelo menos, duas outras ex-colegas. Gershman não está mais no time desde 2015 e alega não se lembrar de Applegate.

O que mais chama a atenção para todos os relatos é a certeza da impunidade por parte dos assediadores, marca registrada de homens em posição de poder (às vezes esta posição de poder pode ser, apenas, ser homem mesmo). Santos chegou a beliscar uma jornalista de outro veículo que apenas acompanhava o time. Greene se sentiu confortável para operar um esquema, praticamente, de cafetinagem com as cheerleaders da equipe para justificar a venda de camarotes de luxo no estádio.

Não existe outra alternativa à liderança, desde o dono Dan Snyder passando por todos aqueles em posições de poder, que não seja a negligência ou a conivência. A quantidade de pessoas que repetiam as práticas já é enorme, mas a de pessoas que simplesmente deixavam tudo rolar chega a assustar, como apontado pela colunista da NFL.com, Judy Battista.

E esta certeza da impunidade só pode vir de uma cultura, dentro do time mas também no mundo, que não só corrobora estes comportamentos como os premia, indo ao extremo absurdo de silenciar as mulheres com acordos de confidencialidade e acordo financeiros que as impeçam de "sujar" a imagem do time. O paralelo com o caso de Harvey Weinstein é inescapável.

Aliás, nossa torcida é que o paralelo não pare por aí, pois como apontado pela apresentadora da NFL Network, Colleen Wolfe, as acusações da história soam comuns para as mulheres que trabalham no meio. Katherine Terrell, que cobre os Saints pelo The Athletic também chamou atenção para o quanto já falou sobre o assunto com colegas mulheres e também como fazemos as mulheres que passam por isso se sentirem como se pudessem ter feito algo de diferente, como se a culpa fosse delas. A CULPA É DE QUEM ASSEDIA, NÃO TEM PAPO.

Vai ser fácil pegar Dan Snyder como o grande vilão que ele é e a NFL vai, sem dúvidas, tentar fazer dele um exemplo. O time já contratou um escritório externo para reavaliar todas os protocolos internos, mas não é uma consultoria INDEPENDENTE e sim uma maneira vazia da equipe tentar se defender. Como se fosse necessário contratar um escritório de advocacia de renome para te falar que, como apontado na matéria do Washington Post, UMA PESSOA SOZINHA NO RH NÃO DÁ CONTA, pra começo de conversa.

Mas não se engane. Punir Dan Snyder, como foi feito com Jerry Richardson após a revelação dos seus casos de assédio sexual e racismo, não é suficiente e nem vai alterar as estruturas que precisam, urgentemente, mudar na liga e na sociedade como bem lembrado pela Lindsay Rhodes, da NFL.com

O caso de Richardson, diga-se de passagem, é um bom retrato do que acontece com homem rico e poderoso quando apronta: é multado num valor irrisório (pra ele, pra mim ia resolver a minha vida) e "obrigado" a vender o time por 2,2 bilhões de dólares. A multa de 2,75 milhões de dólares dá um valor de 0,00125% do preço pelo qual Richardson vendeu o time, recorde para uma franquia da NFL.

Que a franquia ainda não nomeada de Washington seja apenas a primeira denunciada de todas aquelas que permitam uma cultura violenta de assédio contra mulheres.

E que todos nós, lá e aqui no Brasil, tenhamos uma postura que convide e faça se sentir confortável quem se sentir oprimido a sempre externar os abusos sofridos.




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