Bomani Jones: como atletas da PAC-12 começaram um movimento pelos direitos dos atletas universitários
Seguindo o manifesto #WeAreUnited, dos jogadores da conferência universitária PAC-12, o jornalista da ESPN, em matéria para o The Undefeated, conta como jogadores de futebol americano se uniram para criar este movimento tão importante
07/08/2020 20h40 - por Marcelisco
Se a situação pandêmica está feia no profissional, onde os jogadores ao menos são remunerados e contam com uma representação na forma da NFLPA, a NFL Players Association, imagina como estão os jogadores universitários que não recebem salário, são bem mais numerosos e não contam com uma representação coletiva que defenda seus direitos.

Ainda bem que de algo tão ruim como uma pandemia que, aliada a governos violentos, foi responsável pela morte de tanta gente, poderemos estar vendo brotar um movimento significativo pela reivindicação dos direitos dos atletas universitários.

O que veio a público primeiro foram os jogadores da conferência universitária PAC-12, umas das principais da NCAA e uma das ditas "Power Five" do país (as outras quatro são ACC, SEC, Big Ten e Big 12), apresentando um verdadeiro manifesto assinado pelos próprios jogadores da PAC-12 no site The Players' Tribune listando demandas melhor organizadas em 4 pilares principais:
  • PROTEÇÕES DE SAÚDE E DE SEGURANÇA - muito voltadas à pandemia, como opção de não jogar a temporada 2020 e medidas sanitárias de proteção, mas também fora da pandemia;
  • PROTEÇÃO DE TODOS OS ESPORTES - um argumento habitualmente utilizado por quem defende o "amadorismo" dos esportes universitários que geram receitas na casa dos bilhões de dólares às universidades é que eles servem para a manutenção dos esportes que não geram receita. Esse fraco argumento cai por terra quando vemos que os times gastam fortunas reformando seus vestiários, estádios e afins, pagam salários exorbitantes para cartolas, diretores atléticos e técnicos universitários, enquanto alegam não ter dinheiro para bancar os demais esportes ou mesmo realmente pagar os atletas;
  • FIM DA INJUSTIÇA RACIAL NOS ESPORTES UNIVERSITÁRIOS E NA SOCIEDADE - a demanda parece grande, mas é apenas o mínimo. Inclui o financiamento e a criação de organizações e eventos de atletas com este propósito;
  • LIBERDADE E JUSTIÇA ECONÔMICA - aqui talvez o ponto que vai ser recebido com maior controvérsia mas que é um debate antigo, de que os jogadores devem ter acesso à riqueza produzida pela sua performance em campo. A ideia de compensar os atletas com a bolsa da universidade é muito bonita na teoria, mas na prática você tira dos atletas os anos em que seu vigor físico poderia lhe render mais dinheiro, enquanto exige dos atletas um desempenho esportivo que não é compatível com a entrega acadêmica que permitiria, de fato, regozijar do benefício da bolsa de estudos universitária. Tudo isso enquanto paga salários astronômicos para todos os envolvidos, menos os próprios jogadores.

Jones, em seu artigo no The Undefeated, conta como que as conversas entre os atletas começaram quando alguns jogadores (os linha ofensiva Jake Curhan e Valentino Daltoso) na universidade da Califórnia, Berkeley, começaram a trocar ideia sobre a necessidade de reivindicar melhores condições em relação ao COVID-19 e perceberam, ao entrar em contato com colegas de outras universidades, que algumas ofereceriam melhores condições que outras. Essa troca de ideias levou os jogadores a perceber que as realidades diferentes não se restringiam apenas às diferentes abordagens em relação à pandemia e, inevitavelmente o assunto caiu nas finanças e na discrepância da realidade dos jogadores negros e brancos.

Ajudados pelo corredor de cross country, Andrew Cooper, os dois começaram as movimentações e a organização necessária para colocar todo mundo na mesa e dar sua opinião. Se você está estranhando um cara do cross country no meio do papo, saiba que Cooper veio da universidade de Washington State onde já havia entrado em contato com as dificuldades de organização, já havia prestado atenção na tentativa dos jogadores da universidade de Northwestern de sindicalizar e também planejado uma greve dos jogadores de basquete nas semifinais do March Madness.

Cooper é organizado e muito motivado. Com esse auxílio, o grupo de jogadores envolvidos na conversa incluiu Treyjohn Butler, da universidade de Stanford e Devon Holland, jogador da universidade de Oregon e projetado como um defensive back de primeira rodada do Draft 2021.

É se organizando e conquistando nomes referência que o movimento tem chance de gerar algum resultado positivo para os jogadores. O sistema inteiro é montado contra eles e a opinião pública é frequentemente manipulada a acreditar que os jogadores deveriam se sentir privilegiados por estarem onde estão. A conferência Big Ten também teve seus jogadores se manifestando a respeito das diretrizes da conferência para o COVID, falando em nome de atletas de diversos esportes e insatisfeitos com o que tem sido feito até aqui.

Na realidade, a bolsa de estudos não pode ser aproveitada em sua totalidade, um percentual irrisório de jogadores vão para a NFL e os que não fazem parte da pequena minoria que recebe salários astronômicos. Vale lembrar da realidade de onde partem muitos dos jogadores e o quanto a família inteira depende de seus rendimentos como atleta.

A carreira na NFL tem média de menos de 3 anos.

 




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