Sem trampo na NFL, Colin Kaepernick vive de ser incrível na vida real
Boicotado pela liga após se manifestar pacificamente contra a brutalidade policial contra a população negra, Kaepernick se tornou uma figura ainda maior como ativista do que como jogador
29/05/2020 17h42
Lá em 2016, 23894723 milhões de anos atrás, Colin Kaepernick, o jovem quarterback titular do San Francisco 49ers, começou a protestar a brutalidade policial contra a população negra dos Estados Unidos ao ajoelhar-se durante o hino nacional antes dos jogos. A lógica era simples: chamar atenção para o fato recorrente na sociedade americana de que uma pessoa negra tem uma chance muito maior de morrer nas mãos da polícia do que uma branca.

Em decorrência desse simples posicionamento pelo que é correto, baseado na observação da realidade, uma vez fora dos 49ers e no mercado livre de jogadores da liga, Kaepernick nunca mais recebeu uma oferta de uma das 32 franquias, no que caracterizou um óbvio conluio entre os donos de time com medo da reação das pessoas racistas que interpretaram a manifestação pacífica do camisa #7 de maneira desonesta. Você vê, ajoelhar durante o hino nacional, mesmo avisando que a ideia era protestar por algo específico foi interpretado como desrespeito à bandeira, aos valores do país e até ao exército. Óbvio que esse sentimento foi também alimentado por um presidente cuja base fanática e colérica enxerga no patriotismo e militarismo dois pilares importantes da sociedade racista que integram e reforçam. Estas pessoas assistem futebol americano e os donos sabem disso.
 
De lá pra cá, Kaep continuou se preparando e, apesar de cada dia estar mais distante ainda de voltar a jogar na NFL, permanece um jogador muito melhor que a imensa maioria dos quarterbacks reservas e de um número considerável dos titulares. Os jogadores, técnicos e mesmo os donos de franquias sabem disso. Em paralelo, Colin Kaepernick virou um ativista social presente, uma voz a ser ouvida e uma pessoa com ações reais que ajudam o próximo e a causa da justiça racial nos EUA.
 
Fora da NFL, mas ainda debaixo dos holofotes, Kaep financia a campanha Know Your Rights Camp, cuja missão é avançar a liberação e bem estar das comunidades racialmente oprimidas através da educação, auto-capacitação, mobilização em massa e a criação de novos sistemas que elevem uma nova geração de líderes para a mudança. A missão aqui descrita foi traduzida de maneira livre do site, então convido você a entrar e conhecer mais do trabalho, que inclui educar a população negra acerca dos seus direitos nas abordagens policiais das quais são frequente e injustamente alvo. 

Foi usando a plataforma alcançada pela fama como atleta e também ativista à frente do Know Your Rights Camp, que ele pôde, por exemplo, apoiar o “100 Suits for 100 Men”, uma iniciativa em Nova Iorque que ajuda pessoas a não reincidir em práticas criminosas, através do auxílio na busca por emprego oferecendo cortes de cabelo e ternos, além de mentoria profissional, tudo na faixa para quem precisa. Doou ternos e chamou atenção para uma campanha positiva e legítima, que age de maneira direta.
 
Agora, em face dos protestos justificadamente violentos da população em todo os EUA, mas principalmente em Minneapolis, resultado do brutal assassinato de George Floyd pelo policial Derek Chauvin, Kaepernick, através do Know Your Rights Camp, se prontificou a bancar o auxílio jurídico necessário para os manifestantes detidos pela polícia.
 
Vale lembrar, que Chauvin, o policial responsável pelo assassinato de George Floyd, permaneceu livre até a tarde de hoje, quando, após três dias de manifestações da população e forte repressão policial com direito ao presidente dos EUA ameaçando enviar reforços para conter a população na bala, foi finalmente detido pela polícia de Minneapolis.
 
Se o “justificadamente” chamou sua atenção, talvez você tenha dificuldade de perceber que os seres humanos eventualmente chegam aos seus limites e a revolta de uma população tão marginalizada, perseguida e violentada por um estado racista é o mínimo que se pode esperar após mais uma morte injustificada. 
 
Kaep pode sair da NFL, mas a sua mensagem é maior e atemporal, por isso, nenhum recorde de jardas e touchdowns poderá apagar o maior feito de Colin Kaepernick: ampliar a voz de causas justas e contribuir por uma melhora concreta do mundo onde vive.


Ilustração de Guga Sanches




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Erro!
Filipeem 05/06/2020, às 19h41
Admiro mto Kaepernick e hj mais do que nunca figuras como ele se mostram necessárias para o esporte e para o mundo!!