A resposta vazia de Ron Rivera sobre o nome racista do seu time diz muito sobre o pensamento conservador
A ideia de que a discussão não é boa para o momento atual e de que o nome do time de Washington sempre foi parte do imaginário do futebol americano reflete muito bem o pensamento conservador que atrapalha o debate a evolução da sociedade
01/07/2020 12h47 - por Marcelisco
No primeiro dia de 2020, o ex-treinador do Carolina Panthers, Ron Rivera, foi contratado para ser o treinador principal da franquia da NFL de Washington. De lá pra cá, muita coisa aconteceu no mundo e na NFL, mas uma coisa que não havia acontecido até o mês de junho foi alguém endereçar a questão racial do nome do time "Redskins" para o treinador. Para quem não sabe, a palavra "redskin" é uma referência racista aos nativos americanos, relacionada com o escalpelamento realizado pelo homem branco invasor remunerado pelo governo britânico por cada escalpo nativo trazido pelos invadores, ainda no século XVIII.

Com isso, há um movimento para a mudança do nome da franquia, proposta que é rejeitada pelo dono do time, Dan Snyder, um dos maiores babacas entre os 32 donos da NFL (um feito por si só).

Quando alguém resolveu perguntar a Rivera a respeito, a resposta foi bem desanimadora.

Estamos em um momento onde a discussão racial e de violência policial ganhou ainda mais espaço no debate público, principalmente com o assassinato de George Floyd nas mãos da polícia de Minneapolis. Ainda assim, Rivera acredita que este não é o melhor momento para endereçar justamente a questão racial do nome do time que, agora, lidera.

“Eu acho que é sobre o momento e o timing. Mas, você sabe, eu sou apenas alguém de uma era diferente, de quando o futebol não fazia tanta parte do cenário político. Você sabe, essa é uma das coisas difíceis para mim também, que eu sempre quis tentar deixar essas coisas separadas. As pessoas querem que eu me envolva com política, save, quando eu estava treinando e eu continuava dizendo pra eles: 'Não é pra mim chegar aqui e influenciar pessoas'. Eu tenho as minhas crenças, eu sei o que eu penso, sabe, eu apóio os movimentos, sabe, apóio os jogadores. Eu acredito no que eles estão fazendo e, de novo, sabe, eu acho que existem alguns elementos de algumas coisas que tem tudo a ver com o timing e a melhor hora para discuir essas coisas.”

Por onde começar?

Primeiro que tudo envolve política SEMPRE. A própria ideia de que a política tem que ficar separada de qualquer aspecto da nossa vida já é parte da política, já que é uma ideia que permite que o status quo seja questionado ainda menos, que a predominância do senso comum possa ser dissipada sem qualquer desafio. Além disso, não é verdade que em tempos mais simples não havia política envolvida, mas sim que antes era muito mais fácil calar os dissidentes. A NFL já foi uma liga que não permitia a contratação de atletas negros e a franquia de Washington, inclusive, foi a última que permitiu a integração (uma estátua do antigo dono da franquia responsável por isso, George Preston Marshall, foi removida da propriedade do RFK Stadium, parte do movimento de derrubada de estátuas representantes de figuras racistas e problemáticas em geral. Marshall só permitiu a integração do time com jogadores negros após ser obrigado, em 1962).

Talvez o nome de Colin Kaepernick venha fácil à sua cabeça, mas você conhece a história de Mahmoud Abdul-Rauf? O ex-jogador da NBA foi suspenso e perdeu parte do salário por se recusar a se levantar para o hino nacional americano, em 1996. Pois é. A política faz parte de tudo, mesmo o silêncio e a apatia são políticos e, portanto, o que temos hoje é um cenário muito mais aberto de disputa de espaços, onde as ligas profissionais e seus representantes têm chances cada vez menores de fugir do escrutínio dos fãs. Ou você acha que a polêmica do Michael Jordan do "reoublicanos também compram tênis", relembrada no documentário "The Last Dance", da Netflix, teria a mesma recepção nos dias de hoje?

Não é que, hoje, a política esteja envolvida no esporte e antes não. É que, hoje, é mais difícil pra quem quer fingir que está tudo bem continuar fingindo que está tudo bem.

E sobre o timing, é bastante complicado aceitar que alguém não esteja acompanhando o noticiário do próprio país, fervilhando com protestos e denúncias de casos de violência policial contra negros, mas também contra latinos e nativos americanos. A própria NFL e alguns dos seus principais jogadores, treinadores e até donos de time dizendo claramente que VIDAS NEGRAS IMPORTAM (o quê, se é apenas simbólico, já é um avanço enorme em uma liga que boicotou o jogador que começou com os protestos). Se agora não é o melhor momento para uma discussão que envolve a NFL, racismo, manifestações de minorias e desejo de mudança, quando que será?

Esse papo é antigo e equivalente ao famoso "na volta a gente compra" que muito pai usou com os filhos torcendo para que, na volta, eles esquecessem dos seus desejos. É um comportamento conservador que revela asco à mudanças, já que estas mudanças causam desconforto e incomodam privilégios. Não é porque não é fácil, que não é cômodo, que algo não deve ser feito. Alguns argumentariam, inclusive, que é até por isso que a discussão sobre o nome do time e sobre muitas outras questões sociais e econômicas precisam ser abordadas cada vez mais, com coração aberto e coragem para mudar.

Que isso venha de um treinador que faz parte de um super enxuto grupo de head coaches representantes de minorias na NFL, só mostra como que a estrutura racista da nossa sociedade é enraizada, o tão falado "racismo estrutural".

O momento para melhorar a sociedade é sempre agora, não importa que seja difícil, que incomode, que corte privilégios de alguns que acham que seus privilégios são direitos e os direitos dos que não têm direitos é que são os privilégios. O mundo precisa melhorar sempre no agora, não adianta empurrar com a barriga e fingir que o problema não existe.

Até que mude o nome do time, a franquia de Washington vai continuar sendo referenciada por aqui apenas pelo nome do local. E olhe lá.




Obrigado por comentar!
Erro!